Uma das coisas mais sujas e baixas que se tem notícia é o uso da necessidade alheia. Jogar e lucrar com a necessidade alheia é uma forma de humilhar e até escravizar, sujeitando pessoas a condições absurdas. Aprisionamento, humilhação, subserviência, escravidão, exploração. Palavras recorrentes em livros de história ou em páginas de jornal. Quem acha que isso faz parte do passado ou associou com alguma imagem de escravos no engenho, com certeza não vive no mundo de hoje. O ato covarde de submeter uma pessoa a situações desagradáveis e desumanas pelo simples fato da dependência pela sobrevivência é um crime de proporções cósmicas: mexe com o lado material e espiritual da pessoa. Destruir uma esperança, cuspir no prato e mijar no sonho alheio embrulha o estômago e desperta a raiva. Mas a raiva precisa ser controlada pois não há como lutar de mãos amarradas. Ou você come ou você morre. Instituições de ensino, empresas e até igrejas (seitas) formam o novo reich. A visão e a retórica sádica do lucro pela submissão acolhe rebanhos tal qual fizeram os nazistas na Europa. Exagero? O que difere o primeiro do segundo nesse caso, é que os nazistas exibiam as roldanas e os materiais de tortura e a nova aliança – empresas, cursos e igrejas -, prefere fazer de modo mais silencioso e muito mais eficaz. A época movediça é também a do medo. Fiéis desesperados lotando igrejas e ginásios, doando o que não têm em busca de conforto e esperança e enriquecendo impérios da fé. Multidões em busca de uma vida no mínimo digna, se submetendo a trabalhos que beiram a escravidão e completamente fora das leis trabalhistas, jogando suas fichas numa esperança que só aparece na bandeira de uma país ingrato. Se você não quer, tem quem se submeta. Ou você cede ou sofre no fogo do inferno. É pegar ou largar. Eis a consolidação do sadismo.
quarta-feira, 27 de agosto de 2008
COVARDIA ONIPOTENTE
terça-feira, 26 de agosto de 2008
NEUROSES E FANTASIAS PT3 - CONCURSOS PUBLICOS
A terceira parte da neurose não é tão diferente do que foi dito antes. Agora, o adolescente é um jovem á beira da vida adulta, ou aquele tipo que pensa em retardar ao máximo as responsabilidades. Formado, não tem mais a desculpa de não arrumar emprego por causa da faculdade. Estágio que era raro agora é inexistente. Bate de porta em porta e só recebe a frase célebre “aguarde que entraremos em contato”, uma boa maneira de bater na cara do candidato e dizer “não há vagas” ou “você não se encaixa no perfil da empresa”. A clientela dos cursos preparatórios pra concursos é muito mais heterogênea: além dos descritos acima, há também os que estão trabalhando e até constituem família e desempregados que apostam suas últimas fichas nos estudos. A grande fixação agora é a busca pela estabilidade. Essa palavra é mágica para os ouvidos da classe média envolta em dívidas, cercada pelo monstro faminto do desemprego e cada vez mais achatada entre pobres e ricos. Afinal, é justamente esse povo neurótico que carrega o país nas costas. Promessas de salários carnudos, a tal estabilidade, garantia de emprego “forever” e uma série de vantagens a ponto dos candidatos enxergarem as repartições públicas como se fossem uns verdadeiros oásis. Os mesmos abutres agora mudam o rótulo da embalagem, mas o espírito é exatamente o mesmo. Muitos exibem até os salários dos cargos ao invés da mensalidade. Gaiatos arrumaram um bom motivo para não arrumar emprego: “não posso cara, estou estudando para concurso”. O mais cômico é que a maioria dos concursos demoram anos pra sair o edital e mais um ano pras inscrições, isso quando não são adiados por tempo indeterminável. Simulados, uma enxurrada absurda de informações, leis, códigos, apostilas, adendos, fórmulas e macetes milagrosos, aulas extras inclusive nos finais de semana e a promessa de que a redenção e os primeiros passos da estabilidade estão nas repartições públicas. Mas não avisam que são vagas para celetistas. E nesse rebanho de desespero, há pessoas angustiadas com livros na cabeceira, no trem, no metrô, no busão. Nada mais é do que a prorrogação da angustia e da fantasia. Diferente dos vestibulares, os aprovados ficam naquela espera eterna ou nunca são chamados. Só resta mesmo a esperança.
NEUROSES E FANTASIAS PT2 – ADOLESCENTES NO CURSINHO
Na adolescência, o dito cujo precisa passar no vestibular e seus pais, cientes de que a educação do colégio não deu muita base, jogam o teenager num cursinho. Rolam as crises: o guri num sabe o que quer ainda da vida – até porque com 18 anos é muito difícil fazer uma escolha que pode te sentenciar a vida inteira. A cada ano que passa, aumenta o numero de vestibulandos e candidatos a vaga, que conseqüentemente parece encolher cada vez mais. A neurose bate nas salas superlotadas de cursinhos tão caros quanto a mensalidade de uma faculdade paga. Mas a fantasia de ver o guri numa faculdade publica é maior então resolvem gastar mais. Não seria mais fácil entrar numa particular? Mas isso é sinal de incompetência ou muitos acham que pelo simples fato do formando ter saído da faculdade particular não conseguirá um bom emprego. Grande diferença... Do outro lado da jogada, estão os empresários (rapinas) ávidos por grana. Sabendo que as neuroses são capazes de criar um mercado de consumo, eles montam os tais cursinhos pré vestibular, tão certos do lucro quanto dois mais dois são quatro. Como foi dito antes, as salas ficam tão lotadas quanto uma cadeia. Os professores precisam de grana, logo precisam lecionar, então, surgem mais vagas no cursinho. É uma junção de interesses em que todos saem felizes e realizados. Compensar anos de erros em um curto espaço de tempo é um dos maiores equívocos – senão burrice – da vida e que sempre fizeram parte do tal “jeitinho brasileiro”. Provas, simulados, uma enxurrada absurda de informações, apostilas, adendos, fórmulas e macetes milagrosos, aulas extras inclusive nos finais de semana e a venda do discurso sedativo de que a redenção e os primeiros passos da estabilidade estão nos campi públicos. Todos preferem não enxergar que nos mesmos campi faltam infra-estrutura e vivem em greve. Poucos são os felizardos. Ao invés de tentar de novo, entram na faculdade particular, coisa que poderiam ter feito no ano anterior ao invés de pagar um “cursinho”. Assim, já estariam no segundo período de qualquer curso, em vez de ficar perdendo tempo. De qualquer forma, tanto os formandos das públicas quanto as das particulares têm algo em comum: depois de 4 ou 5 anos, serão os novos desempregados do mercado saturado, pequeno e sem vagas do Brasil.
NEUROSES E FANTASIAS
Todos nós temos fetiches, neuroses e fantasias, por mais que isso seja negado. Fantasia de transar numa ilha deserta ou fetiche por sapatos – só pra ilustrar – fazem parte do nosso imaginário. Diferente do que muitos pensam, esse assunto não se restringe somente ao campo sexual e é errôneo achar que as duas coisas são a mesma coisa. Mas isso é assunto pra outro dia. Atualmente as fantasias e neuroses que encontro no cotidiano tem chamado bastante a minha atenção. Como identificar? Uso as palavras de Lair Ribeiro: “o óbvio só é óbvio para o olho preparado”. A fixação e a fantasia se misturam e se intensificam na medida em que o tempo avança. A onda do momento é o tal “concurso público”. Mas quando era adolescente a paranóia atendia pelo nome de “pré-vestibular”. Ambos são parecidos e até se complementam, vendendo a idéia de redenção. Competição acirrada, uma maratona cruel e por vezes desleal. (É engraçado, mas sempre associo esses concursos com a briga dos “sptz” pra chegar ao óvulo) Algumas vezes, a primeira pode levar a segunda. Todavia, ambos vendem a idéia de que ali naquela sala de aula estarão desvendados todos os segredos. A sociedade é uma grande tribo de hipocondríacos neuróticos. A cura é a busca incessante por uma estabilidade e isso é completamente compreensível. Vivemos com a corda no pescoço. Empregos vitalícios, salários robustos e vida mansa são um porto seguro numa época movediça e incerta. A bula são os editais e apostilas de concursos públicos. A corrida pelo ouro não sobe mais a serra pra Minas Gerais, isso ficou no século XVII. As diligências do século XXI invadem as salas de aula dos inúmeros cursinhos preparatórios. Todos apostando fichas e tiros no escuro. Tudo tem seu preço.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
AUTOBIOGRAFIA PRIMÁRIA
Era um dia calorento. Devia ser a primeira série primária e na primeira semana de aula recebemos a tarefa inaugural. Até hoje me lembro da cena e da tal tarefa: escrever uma redação com o título de “quem sou eu?”. Quem nunca escreveu uma redação dessas quando era criança? Não só lembro disso como da professora, Leila, uma loirinha recém chegada de São Paulo. Na minha escola a gente tinha um caderno de redação, com folhas cinzas e divididas assim: uma pra rascunho, pra rasurar á vontade e outra pra passar a limpo, sem erros. Como tenho um grande problema de concentração, fiquei um bom tempo disperso, falando e pensando no que eu ia por naquelas linhas. Depois que escrevi a primeira frase, foi difícil parar. Até hoje é assim. Infelizmente lembro de muito pouco do que rabisquei, mas todas as vezes que encontro um “quem sou eu” pela vida, me lembro da sala de aula na primeira série. Ao navegar na Internet e ver diversos perfis e blogs, percebi que reescrevemos nossa singela redação de primário ao longo da vida. Hoje em dia, você escreve sua autobiografia em perfis de sites de relacionamentos, ou joga tudo na mesa de bar entre amigos depois de várias cervejas. Se você está em busca de emprego, é claro que não vai dizer que é de Sagitário, torce pro Botafogo e gosta de Woody Allen. Há uma tênue linha entre duas questões: “quem sou eu?” e “o que você já fez na vida?”. Pode ter certeza que essa confusão rolou lá na primeira série com a Tia Leila. É comum esse tipo de confusão, visto que uma influencia a outra diversas vezes. Procurar definir em poucas palavras nunca é o suficiente, mas também vale á pena. Ainda bem que existem os signos do zodíaco, que facilitam – pelo menos pra mim -, muita coisa. De qualquer forma, essa é uma redação em constante mudança.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
RASURA DESTILADA
Destile todo seu ódio através da caneta. Todo aquele inconformismo, toda raiva, aquela carga acumulada. Um grito sufocado, uma resposta ou palavra não dita, uma frase mal interpretada, o soco esquivado, o cuspe desviado. Sempre tem uma pedra no meio do caminho que precisa ser chutada. Sempre surge aquela “persona” inconveniente a ser premiada com uma vulgar exibição de violência. Eu encontrei nas palavras a minha arte marcial e a língua é o meu canivete. Descobri que as palavras são tão cínicas quanto singelas. Como sempre acreditei piamente no fato de que todo texto escrito é passivo de interpretação, fiquem á vontade. Sei que tenho a liberdade cínica de dizer: “mas não foi isso que eu quis dizer”! Encontre a face a ser batida. O discurso a ser violado. Se alguém verá não importa, como também não importa como você atingirá ou o que será dito ao seu alvo. O que vale é atingir, incomodar, irritar. A válvula de escape é um bom remédio pra curar certos carcinomas. Todo mundo vive sua via crucis e necessita de catarse. Lave a alma, respire fundo, tome um drink. Então, destile todo seu ódio na ponta das mãos, das línguas, das canetas... Mas sempre tome cuidado pra não acordar a vizinhança. O silêncio também vale como resposta.
segunda-feira, 21 de julho de 2008
MÉNAGE AMIS
Já não havia muitas esperanças para Gustavo. Mais uma noite de sábado em casa, duro, sem perspectivas de noitadas regadas a biritas e uma possível sacanagem. Sua tristeza alternava momentos de aflição, pois toda vez que isso acontecia, tinha a ligeira sensação de que deixava de curtir a vida. Gustavo foi para a janela e observou, melancólico entre um cigarro e outro, o mar de luzes dos prédios e bairros vizinhos que se estendia além do Grajaú, Lins, Méier...luzes piscando nos prédios...nas favelas...carros passando, e mais luzes... Pensava na possibilidade de descer e pegar um ônibus ou qualquer coisa que o levasse mais rápido para um lugar e encher o pote. Não gostava de imaginar a boemia pulsante pelas ruas do Rio sem o ar da sua graça, pois a aflição o consumia ainda mais. Isolado no subúrbio. Longe demais das capitais.
Decidiu ligar para os amigos. Quando um não estava a fim de sair, outro teria que acordar cedo, isso sem citar aqueles que já estavam na rua. Os que estavam namorando, nem valia muito gastar impulsos telefônicos, pois sabia qual era a resposta. A sua angústia aumentava quando ele olhava para a sala de estar e presenciava a decadência: velhos sonolentos assistindo programas humorísticos de piadas imbecis, vencidas e sem graças na TV. “A TV é um lixo”, resmungou. Ficar no computador? Impensável! Sentia-se mal só de pensar, mas era a saída mais plausível para fugir do terrível monstro chamado tédio. Foi quando então seu celular milagrosamente tocou.
- Oi Gustavo, aqui é o Marcio! Anda fim de fazer alguma coisa?
- Porra, você salvou a minha noite de sábado! Vamos sim! A ultima coisa que eu quero é ficar em casa! Não agüento mais! Você me salvou aos quarenta e cinco do segundo tempo!
- Apareça lá em casa! Minha mãe foi numa festa em Nova Iguaçu e volta só amanhã de manhã. Vamos tomar umas cervejas, ver uns filmes, ouvir musica, enfim, se divertir um pouco.
Gustavo então desceu a rua todo sorridente, pegou um ônibus e chegou antes do previsto. Teve a sorte de pegar um 607 descendo a zona norte na velocidade do som (era a última viagem do motorista, que era a cara do Viola). Lá estava Marcio o esperando com o seu arsenal de DVD e cerveja. Podia não ser a coisa perfeita, mas valia a intenção. No inicio, Gustavo ficou um pouco sem graça, pois foi recebido pela namorada do cara. A empolgação para sair de casa foi tanta que ele nem se lembrou desse detalhe. Mas já era. Gustavo perguntou se tinha algum problema, se estava atrapalhando alguma coisa. Marcio disse que não. Inclusive Natália havia apoiado a idéia. Estranho, mas...
Natália é uma loirinha muito simpática, divertida e gostosa. Ela tinha uma mania de balançar os cabelos repicados, parecia até comercial de xampu. Estava com uma blusa vermelha, decotada, uma minissaia jeans e pés descalços. Quando ela sentava e juntava suas pernas, era irresistível não olhar. Eram pernas torneadas, coxas grossas e brancas, perfeitas para carícias. Marcio é gente fina, gosta de inventar coisas do nada e tem um jeito meio panaca. Aliás, era justamente esse jeito meio Michael Palin que fazia dele um cara divertido.
Assistiram a um filme de suspense. Serial Killers. Os três adoravam. Cervejas e pipocas na sala. Gritos, sangue e terror na tela. Paisagens sombrias, pântanos (aqueles bem típicos do sul dos states), neblinas, cadeiras elétricas, jaulas, doentes mentais e muita insanidade. Depois do filme, começaram as conversas sobre cinema. Natália entendia muito de cinema e adorava Almodóvar. Já Marcio era fã incondicional do Tarantino. Para relaxar mais, Marcio então colocou uns CDs novos que havia comprado e queria mostrar para o seu amigo. Faltavam três pra ele completar a coleção do Rush.
Natália saiu da sala por uns instantes. O papo entre os dois mudou de rock para sexo em questão de segundos. Coisas do mundo masculino. Marcio perguntou se o amigo tinha algum filme pornô novo pra emprestar e então mostrou suas novidades. Gustavo estava com três caixinhas de CDs no colo quando Natália voltou. Ela reparou que Gustavo ficou sem graça e, pra quebrar o gelo, sugeriu que pusesse o tal filme.
Marcio atendeu o pedido inusitado da namorada. Lindas atrizes em orgias alucinantes em cidades oníricas como Paris, Berlim e Praga. Os filmes europeus tinham um charme e um erotismo mais acentuado. Palavras do casal. Todos prestaram atenção no filme por alguns minutos. A partir daí, a conversa girou em torno de sacanagens. Era mais um confessionário de loucuras e fantasias do que os três já fizeram do que uma simples conversa. E muitas gargalhadas. No caso do casal, eles falavam as intimidades em folha corrida. Sem cortes, nem censuras. Isso instigava o tesão e a imaginação de Gustavo, que botava mais lenha na fogueira, contando suas peripécias eróticas.
Natália então sai da sala estrategicamente e Marcio dispara:
- Você já participou de um ménage? Que você acha? Na pilha de fazer um hoje? - Ele ficou espantado ao ser indagado. Não esperava que a sua noite de sábado prometia tanto.
- Cara, já fiz uma vez. (Mentira) Eu até topo, mas depende de vocês. Eu não quero deixar uma impressão de...
- (Interrompendo) Fica tranqüilo. Converso com ela há tempos. Eu já esquematizei tudo hoje. Pensei que você daria pra trás, por isso que não avisei que estava sozinho com ela aqui. Mas o pacto é o seguinte: sigilo absoluto e nada de beijo na boca, porque você sabe, sou muito ciumento. O resto você pode tudo.
Ela então volta, Marcio insinua e ela avisa:
- Depende de vocês... Eu não sei. (típico charme feminino. Estava doida pra fazer uma sacanagem, mas precisava da insistência masculina. Coisa de mulher). Poxa é muita loucura, né?
Natália então saiu novamente da sala, foi tomar banho e voltou para a sala só de lingerie preta. Marcio então pede pra Gustavo pegar uma camisinha, já que a namorada havia esquecido. Força do hábito. Quando voltou para a sala, o casal já estava no “warm up”.
Os minutos corriam na mesma proporção em que os corpos esquentavam. Ela não teria muito descanso. E também não ligava. Ela se revelava insaciável e animada em realizar uma fantasia. Não só a do namorado, como também a dela. Adorava ter dois caras ao seu dispor e não importava se estava no comando, ou se era dominada. Queria levá-los á lona e tinha talento de sobra pra isso. Na sala deixou os caras brincarem: abriram as pernas, davam belo banho de língua por todo seu corpo.
A luz que vinha do corredor entrava naquela sala escura como um feixe amarelado, produzindo uma iluminação indireta, valorizando ainda mais as silhuetas, a pele lustrosa, arrepiada e os contornos. A visão que Gustavo tinha do corpo de Natália era exuberante: seu busto carnudo e branquelo fazia cada vez mais movimentos ofegantes na medida em que ele a beijava, sugava e tocava. O silêncio era quebrado pelas respirações ofegantes e gemidos sufocados e esparsos.
Gustavo penetrava em Natália quando surgiram uns barulhos estranhos vindos do corredor. Passos e portas batendo: a mãe de Marcio estava chegando em casa. Também pudera, já passavam das 4 da manhã. O clima de filme pornô vira comédia pastelão em segundos. Eles então saem correndo em direção ao quarto de Marcio de forma estabanada. Gustavo pegou seu jeans e suas roupas, mas deixou cair logo a cueca, no corredor. Marcio vestiu seu jeans e teve que fazer sala para a própria mãe, desconfiada, tentando disfarçar ao máximo o que estava acontecendo.
Enquanto isso, Natália e Gustavo tinham ataques de riso no quarto. Risos sufocados, claro. Ela fechou a porta do quarto, ligou o ar condicionado e a TV. Ficaram esperando Marcio, que dava atenção á mãe. “A festa foi muito boa, você devia ter ido meu filho! Você nunca mais visitou seus primos em Nova Iguaçu!” As frases chegavam ao quarto e quanto mais a mãe de Marcio falava, mais eles riam, tentando imaginar a impaciência dele. Depois de longos minutos, a mãe de Marcio vai dormir e ele volta pro quarto para continuar a travessura.
Depois do susto, era hora de recompor a brincadeira. Desta vez a iluminação vinha da frieza azulada da TV. Quarto trancado, o ar condicionado ligado e agora, a MTV passando clipes raros e de boa qualidade (pois todos sabem que a sua programação é uma grande merda!). Enquanto rolava Sisters of Mercy e outras coisas do mundinho dark oitentista, Marcio mandava Natália transar com o amigo. Ele era um voyeur assumido e inveterado.
Natália então monta em cima de Gustavo e começa o seu show. Monta, cavalga, rebola, chupa, senta, cospe, bate, lacera, se excita. Arranha o corpo do amigo e põe a mão na boca. Ela agora é quem dominava. Apesar do quarto fechado, do ar condicionado e da TV, poderiam ouvir os gemidos e os barulhos. E como todo mundo sabe do que se trata quando escutam esses barulhos... Ainda mais na quietude absoluta da madrugada.
Depois de uma bela dupla penetração e diversões sem culpa, Gustavo vai á lona e sai de cena. Agora era a vez do “elemento externo” ver o casal em ação. Os dois adoravam saber que estavam sendo observados. Transavam como se tivessem fazendo um filme erótico, mas desta vez, estavam a uma distância medíocre do espectador. O espectador ali era interativo, podia inclusive participar daquela cena. Mas ao invés disso, preferiu assistir a bela cena dos dois transando. Todos estavam excitados na mesma sintonia.
Enquanto eles transavam, os pensamentos de Gustavo corriam em velocidade sônica. Tentava percorrer mentalmente a trajetória que o levou até o presente momento. Imagens e nuances confusas e frenéticas invadiam este tal percurso, entre um cigarro e outro. Não há como controlar o fluxo do pensamento. Era realmente curioso ver como as coisas mudavam de uma hora para outra. Sentia-se como um rei, sentado numa cadeira confortável, vendo os dois amigos se amando loucamente, entre gemidos, mordidas e arranhões, enquanto divagava. Acendeu mais um cigarro pra relaxar. Ele alternava ver a performance do casal e os clipes da TV. Tudo aquilo também fazia a sua mente viajar a pensamentos distantes. Imaginava e constatava como a vida era surpreendente. Horas atrás estava reclamando, aflito, por não se divertir na noite de sábado e agora, estava no meio de uma orgia entre amigos. Jamais imaginaria viver essa situação. Também não imaginava a prova de amizade do casal.
Gustavo despertou de suas divagações ao ouvir o orgasmo de Natália. Já havia fumado uns três cigarros. Os olhares eram confidentes. Sérios. Penetrantes. Apesar de tudo, Marcio e Natalia se amavam. Eles separavam o amor da sacanagem sem problemas. Paixão e erotismo sempre formaram uma bela dupla.
No mais, o trio se revelou bem entrosado. Desencanado. Afinal, não se deve convidar qualquer pessoa para um ménage, é necessário analisar o candidato (ou a candidata) como se estivessem concorrendo a uma vaga de emprego. Rigor, confiança, enfim, nem vale descrever isso aqui. Sabiam que teriam que guardar segredo pra sempre. Assim, a amizade deles entrava numa esfera mais profunda. A troca foi perfeita: Natália e Marcio estavam realizando uma fantasia ao mesmo tempo em que iniciavam o amigo numa nova experiência. O casal sentia confiança em Gustavo e estavam conscientes do jogo, onde a malícia conduz as regras e não há espaço para a ingenuidade. Brincadeiras adultas. Estavam satisfeitos. Realizados.
